Com a Escola que o Estado Novo impôs em Portugal, mais de 30% da população portuguesa era analfabeta em 1974. Em alguns países do Norte da Europa, o analfabetismo tinha sido erradicado no final do século XIX! Mas em Portugal a ignorância foi uma arma de um regime que censurava a informação e proibia as liberdades políticas.
Na Escola do Estado Novo impunha-se uma orientação religiosa. Rapazes e a raparigas frequentavam escolas diferentes (ou divididas por muros). Os professores utilizavam com muita frequência castigos corporais severos. Nas Universidades, a polícia política espiava os estudantes e perseguia os movimentos associativos.
Grande parte das crianças ia para as escolas do Estado Novo com as bainhas dobradas das calças do pai ou do irmão mais velho, que os remendos ajudariam a aguentar. As condições de trabalho eram miseráveis e os trabalhadores poucos ou nenhuns direitos podiam defender. A Segurança Social só começou a prestar serviços universais condignos após o 25 de Abril de 1974.
A representação da Escola do Estado Novo num Cortejo alusivo à História de uma cidade - qualquer cidade portuguesa - não pode deixar de ofender grande parte da sua população, que conheceu a ignorância e o isolamento impostos ao país por Salazar e pelo seu modelo educativo.
A memória da Escola fascista tem que ser enquadrada no contexto da sua época e do regime que a promoveu. Reduzi-la ao triste quadro que tem acompanhado o "Cortejo Histórico de Vila Real de Santo António" não é mais do que prestar homenagem a uma memória que a quase todos merece repúdio. De resto, no dito Cortejo não há qualquer referência ao 25 de Abril, numa evidente injustiça ao passado desta cidade.
As lamentáveis fotografias de Salazar e Caetano que foram destruídas acompanharam o Cortejo Histórico desde que o evento se realiza, independentemente do partido que preside à autarquia (PSD ou PS). Mas só este ano o repúdio popular à Escola do Estado Novo provocou incidentes, que de forma alguma justificam a intimidatória intervenção das forças de autoridade que se seguiu.
Ao assinalar a sua História, Vila Real reviveu por momentos o ambiente de intimidação policial de outros tempos. Poucos dias antes, o Presidente da Câmara Municipal recusava prestar informações, à imprensa e à oposição, sobre uma prestação de serviços de Santana Lopes à autarquia, por entender que este não é um assunto de interesse público. A liberdade e a democracia que se conquistaram em Abril de 1974 pareceram ausentes de Vila Real de Santo António nestes dias.